Alice veio dormir em casa.
Quer ver um filme?
Não, vovó, prefiro conversar.
Pegamos uma pipoca e ficamos sob as cobertas papeando.
Ela contou sobre uma questão difícil que teve com uma amiga da escola anterior.
Vovó, ela era uma pessoa muito competitiva, sabe?
Isso não é uma coisa boa. Eu percebia quando estava chegando perto dela, que ela estava falando de mim para as outras meninas.
Sabe como a gente percebe isso, vovó?
Não, me conta.
Pelo olhar, vovó. Pessoas mentirosas têm uma coisa no olhar que quem não é percebe.
Conta mais, Alice.
Assim, ó… Primeiro a pessoa se aproxima de você, quer muito te agradar. Depois, você sabe que ela fala de você sempre quando você não está. Aí, na tua frente, ela te agrada muito, mas é porque ela quer participar das suas amizades. Porque ela já foi excluída de outras. Na verdade, ela não tem muitas amigas.
E ela pedia para fazer parte de algumas brincadeiras, e eu ficava pensando em tudo o que ela tinha falado de mim… mas só passava pela minha cabeça, sabe, vovó?
E você não falava nada?
Não, vovó. Eu pensava se valeria a pena e chegava à conclusão de que era melhor não falar nada e não chamar ela pra brincar. Porque mesmo nas vezes que ela brincava junto, ela continuava a falar de mim quando eu não estava. Melhor ir afastando.
Mas, Alice, você não acha que a gente deveria poder ser honesta e falar tudo?
Eu acho, vovó. Mas naquela situação não iria adiantar, porque ela era invejosa.
Inveja ou ciúmes, Alice?
Inveja mesmo, vovó.
E como você diferencia uma coisa da outra?
Assim, vovó: inveja é algo que você quer tirar. E ciúmes… você quer entrar.
Você diz “entrar” como fazer parte da situação, estar incluída? E “tirar” como algo que você não quer que o outro tenha?
Aham.
Alice, isso você pensou agora?
Sim, vovó. Você não acha?
Eu acho que é a síntese mais perfeita que eu já ouvi sobre a diferença entre inveja e ciúmes.
Fala isso de novo, quero saborear, porque é muito bom, Alice.
Ai, vovó, você é muito engraçada.
#AshistoriasdeAlice8anos!







