Dias desses, encontrei um amigo que não via há algum tempo. Atravessávamos a rua, e ele, simpático, puxou conversa. De repente, soltou:
— Thaís me deixou na mão.
Percebi a dor disfarçada de humor no sorriso torto, já ocupado por um cigarro meio desajeitado.
— Está com pressa?
— Tenho que buscar meu neto em uma hora.
— Quer tomar um café? — apontou para um ali na outra margem.
Sentamos. Ele atirou o cigarro na sarjeta. Um gesto démodé, pensei. O cigarro rolou até a beira do meio-fio, entre a rua e o escoamento, como se também ele estivesse ali, à margem de algo que já não servia.
— Estou arrasado, Lilian. Foi repentino demais. Pensávamos em nos casar no final de setembro.
Não estavam há tanto tempo juntos, talvez pouco mais de dez meses. Mas o suficiente para que nele se instalasse uma sensação silenciosa de falha, como se tivesse ficado aquém de algo que nem ele mesmo sabia nomear.
Ouvi de verdade. Não havia ali pedido de conselho. Havia dor. Uma dor antiga, conhecida de todos nós.
Enquanto ele falava, eu olhava para ele com ternura. Eu conhecia aquele homem há anos. Sempre o achei correto, leal, gentil, sensato — desses que não fazem alarde das qualidades que construiu em si. Havia nele um humor leve, uma forma de estar no mundo que não atropelava.
Talvez por isso o que me chamasse atenção não fosse exatamente o que tinha acontecido, mas o lugar em que ele havia se colocado.
A trilha sonora era linda, mas o silêncio era perturbador. E ele não viu isso, como costumamos fazer quando há mais projeção do que relação.
— Caí no canto de sereia — disse, levantando os ombros, já à procura do próximo cigarro.
Imediatamente me veio a imagem mítica de Odisseu. Anos atrás, numa aula da professora e filósofa Olgária Matos, ouvi algo que nunca esqueci: o herói cuidou dos marinheiros. Todos com cera nos ouvidos. Mas ele, não. Ulisses sabia da força do canto das sereias. Sabia que era irresistível. Por isso pediu para ser amarrado ao mastro durante a longa travessia. Se gritasse, ninguém o soltaria. Se implorasse, ninguém o ouviria. Os marinheiros seguiriam rumo a Ítaca. Ele quis ouvir. Mas não quis se perder.
E seguimos, ainda hoje, nesse mesmo estado ambíguo: entre vigília e torpor. Entre saber e ceder. Entre escutar o canto e ser ou não arrastado por ele.
Mas meu amigo não era o herói da sua própria Odisseia. Pelo menos, não nessa.
Quando ele terminou, eu disse:
— Purpurina.
Ele me olhou, surpreso.
— Como assim?
— Sabe quando chega a grande festa, o Carnaval, a noite mágica?
Ele concordou.
— A purpurina reluz, aparece, seduz, gruda por um tempo. Na manhã seguinte, ela ainda está lá, lembrando o brilho da noite. Fica. Marca. Mas não permanece. Essa é a função dela.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Mas você acha que as mulheres fazem isso?
— Gui, eu acho perigoso generalizar. A gente vai cair nos rótulos que, se por um lado parecem aliviar porque são senso comum, por outro são vazios e não nutrem nossa psique, porque não acessam a dor. Posso te assegurar que, nos tempos de consultório, vi muito brilho com pouca durabilidade. Mas posso te garantir também que lá tem muita dor. São padrões de proteção e rejeição com raízes muito profundas. Talvez a gente nem consiga dar conta de entendê-los aqui. Um dia falamos mais, se isso for importante para você.
Ele insistiu:
— Mas isso é normal? Homens fazem isso?
Pousei minhas mãos sobre as dele. Senti profundamente a tristeza no seu olhar. Fiquei com o coração apertado.
— Isso tem mais a ver com nossos ganchos internos, nossos buracos negros, do que propriamente com gênero. E o carimbo da “normalidade” não faz a menor diferença. Nem todo canto é feito para ser seguido. Nem todo brilho foi feito para permanecer. Talvez eu possa dizer que os homens estão mais para confete. Dá um bom baile, não?
Falei mais para aliviar o clima. Pela expressão no rosto dele, os olhos cravados no meu, percebi que não achou a menor graça.
E, no fundo, não era tão simples assim.
Porque há um jogo ali. Um lança purpurina. O outro responde com confete. E, por um tempo, isso basta. Há brilho. Há encantamento. Há uma espécie de interesse silencioso em sustentar aquele efeito. Mas, nesse movimento, perde-se de vista algo essencial: a Quarta-Feira de Cinzas. O que vem depois do baile. O que tem sustentação quando as palavras encantadoras cessam.
Porque relações maduras não se sustentam na promessa de um eterno carnaval. Elas se mostram no que atravessa a Quarta-Feira de Cinzas. E, quando isso não é visto, o que poderia ter sido algo real permanece apenas como noite de carnaval.
— Gui, não tem receita, não tem linha reta nas relações. Mas tem algo que eu acho prioritário para a longevidade delas: ritmo. E, pelo que eu pude perceber — ainda que tendenciosamente de um lado só —, não havia esse ingrediente.
Fiquei pensando nisso depois, já sozinha. Como estamos carentes de significado… E será que dar nome a ele ajuda a aliviar a dor? Ou será que não aceitamos ter a visão curta… e a carência longa?
Nem tudo que nos encanta foi feito para permanecer. E talvez a dor não esteja no que acaba, mas no instante em que percebemos que acreditamos demais em algo que nunca teve a intenção de ficar.
Se fizermos um rápido flashback, já havia indícios.
Brilhos fugazes. Miragens da nossa própria escassez — e isso não é uma crítica, mas é necessário olhar para ela com um pouco mais de sensibilidade. Da falta que nem sempre precisa ser suprida. Não precisa de reparação.
O descompasso mata a relação. A falta de ritmo sincronizado não sustenta.
A purpurina não mente. Ela é exatamente o que promete ser: esplendor breve, leveza, memória que gruda na pele por alguns dias e some na primeira lavagem — talvez na segunda.
O problema nunca foi ela. O problema é quando construímos um setembro inteiro sobre uma noite de carnaval.
E há algo mais. Às vezes, não é só brilho. É dublagem. Porque a dublagem é hábil, afinada, bem colocada, com a emoção na medida certa. Você compreende tudo. E é justamente aí que algo falha. Porque, por mais bem feita que seja, a dublagem não nasce do gesto espontâneo. E, às vezes, um micro espasmo, se adianta ou se atrasa um segundo. Quase nada. Mas o suficiente para criar um estranhamento. O olho talvez não nomeie. Mas o corpo reconhece imediatamente. Onde há dublagem, há sempre uma interferência.
O amor não precisa de tradução. Aquilo que é, como dizia minha mãe, é. Não inventa o que não é.
Nem todo canto é feito para ser seguido.
Nem todo brilho foi feito para durar.




