A mensagem chegou para mim e para vários amigos quase ao mesmo tempo. Vinha do WhatsApp de uma pessoa que todos conhecíamos. Alguém com quem eu havia me relacionado no passado.
“Oi, tudo bem? Vou fazer uma festa que você está na lista vip de convidados, o GABRIEL SILVA tentou te ligar e deu caixa postal, vou te mandar o contato dele e você salva e já passa uma mensagem para ele mandar o convite, e o voucher.”
Logo depois vinha o contato do WhatsApp: Gabriel Silva Amigo Irmão. Na foto, uma família feliz. E ainda uma última garantia: “Ele está organizando meu ANIVERSÁRIO vai te manda o VOUCHER.”
Estava tudo ali. Um nome. Uma família. Um amigo. Um irmão. Um aniversário. Um convite. Um voucher. E você, principalmente, estava na lista VIP.
Quase todos me mandaram a mensagem imediatamente. Estranharam. Perguntaram. Alguma coisa não fechava. Mas uma pessoa entrou em contato com Gabriel. Mandou mensagem no tal WhatsApp do “amigão”. E foi isso que me fez parar. Porque ela conhecera aquele homem clonado através de mim. Já não tinha contato com ele havia mais de três anos. E ele e eu já não estávamos juntos havia mais de um. Por que, então, alguém que há tanto tempo não fazia parte daquela vida estaria, de repente, numa lista tão íntima de convidados? Não digo isso para apontar sua distração. Ao contrário. Quem sabe ela revele alguma coisa que exista em todos nós. Por alguns segundos, ser incluído pode ser mais convincente do que a própria realidade. A cronologia dizia uma coisa. A lista VIP dizia outra. A lista venceu.
O golpe já não me interessava tanto quanto aquilo que ele revelava sobre nós. Porque talvez ele não esteja contando com a nossa falta de inteligência. E sim com algo muito mais antigo: nossa necessidade de sermos lembrados.
De algum lugar, alguém nos chama. Diz que nosso nome está numa lista. Que há um convite esperando. Que existe até um voucher — essa pequena prova material de que pertencemos. E pode ser que, antes que a razão consiga perguntar “por quê?”, alguma coisa dentro de nós já tenha respondido: “Então ainda lembram de mim.” Talvez sejam essas três letras que façam metade do trabalho. VIP.
Ainda precisamos tanto disso? De uma pulseirinha diferente, de uma porta lateral, de uma mesa reservada, de alguém dizendo nosso nome na entrada. Da sensação, mesmo por alguns segundos, de que pertencemos a um lugar onde nem todos pertencem. E o golpe é engenhoso porque fabrica pertencimento dos dois lados. Você é VIP. Ele é Amigo Irmão. O desconhecido deixa de ser desconhecido. Ganha nome, família, intimidade. E nós também deixamos de ser apenas mais um: fomos escolhidos.
Não é tecnologia que eles estudam. Talvez seja vaidade. Ou, mais fundo ainda, solidão. Aquela pequena fome de existir no olhar do outro. “Você foi escolhido.” “Seu nome está na lista.” “Pensamos em você.” São frases perigosamente próximas de outras que passamos a vida querendo ouvir: Eu me lembrei de você. Você importa. Eu quero você aqui.
Houve ainda uma outra resposta que me chamou a atenção. Uma pessoa me disse: “Ainda bem que não fiz nada. Eu estava tão distraído, saindo da clínica.” E a palavra ficou comigo. Distraído. Talvez todo golpe precise de uma pequena ausência nossa. Não necessariamente uma ausência de inteligência. Uma ausência de presença. Estamos saindo de algum lugar, entrando em outro, respondendo uma mensagem enquanto pensamos na próxima, atravessando o dia sem habitá-lo inteiramente. E então alguma coisa nos seduz. Uma festa. Um convite. Uma lista VIP. Distração e sedução são duas substâncias bastante combustíveis quando se encontram — separadas, não há necessariamente perigo em nenhuma delas.
A distração às vezes nos poupa do looping mental desnecessário; a sedução pode simplesmente nos devolver uma certa leveza. Nem toda distração é a mesma. Há a que nos alivia por um instante — um respiro, não uma fuga. Ela não nos tira de nós mesmos; nos devolve, depois, com mais leveza. E há a que nos rouba e nos leva para rumos pouco saudáveis. O problema começa quando uma passa a depender da outra. Quando preciso me distrair para me divertir. Ou quando, querendo me divertir, suspendo justamente aquela pequena vigilância que me faria perguntar: Isso faz sentido? É nesse intervalo — curto, quase invisível — que alguma coisa pode entrar. Um convite. Uma promessa. Uma lista VIP. Ou um golpe. E nós abrimos a porta. Não necessariamente porque somos ingênuos, mas porque somos humanos. Queremos ser vistos. Queremos ser lembrados. Queremos pertencer. E talvez ainda exista em nós uma criança diante de uma roda, esperando que alguém abra um espaço e diga: Vem. Tem lugar para você.
Só que há uma diferença enorme entre desejar um lugar e precisar que esse lugar seja especial. É aí que o pertencimento se transforma em outra coisa. Não basta estar. É preciso estar dentro. Bem enturmado, quase amigo de todos. Não basta ser convidado. É preciso ser VIP. E talvez a pergunta mais incômoda desse golpe não seja como alguém conseguiu enganar tanta gente. É outra: Que parte de nós fica tão feliz por ter sido escolhida que, por alguns segundos, se esquece de perguntar se aquilo faz sentido?
Gabriel Silva Amigo Irmão não existe. Mas aquilo que ele procura em nós existe. E talvez seja por isso que o golpe funcione.







