As ágeis mãos faziam um malabarismo estratégico: mochila nas costas, mala de rodinhas na mão direita, bolsa crossbody atravessando o corpo, e uma sacolinha de chocolate – provavelmente comprada na última hora para presentear alguém querido.
Entre os dentes, a presilha de cabelo aguardava ansiosa sua missão final: prender num coque emergencial aqueles fios rebeldes.
Um riso escapou da minha observação: só mulher consegue esse feito, e ainda com certa elegância improvisada.
Levantei e ajudei a enfiar a mochila no compartimento acima dos assentos. Ela se deixou cair ao meu lado com um suspiro de missão cumprida e me agradeceu com um sorriso largo, desses que a gente se reconhece nele.
Peguei meu livro.
– É tão bom quanto a peça? perguntou curiosa.
– A peça nasceu daqui. Eu sou suspeita: adoro o Bonder. E a Clarice… magistral. Aquele pano preto que dança sobre o corpo dela… sem palavras.
Contei que, no “Navegar é Preciso” – um barco que cruza o Rio Negro com escritores, artistas, músicos e filósofos, eu disse à Clarice o impacto que aquele pano me causara sobre sua nudez. Ela riu: “Um paninho no lugar de tantas roupas… se soubéssemos disso antes, facilitava nossas vidas, hein?”
O livro era “A Alma Imoral” do Nilton Bonder. Já o havia lido, mas quis voltar a ele. Ainda assim, ficou fechado o resto da viagem: preferimos mergulhar num papo gostoso.
Ela terminara um relacionamento de cinco anos semanas atrás.
– Aliviada – disse, como quem larga uma pesada mala invisível. A gente vai se afastando tanto da essência, fazendo tantas concessões autoimpostas, que no final eu já não sabia mais quem eu era de verdade.
“De verdade.” Palavrinha capciosa – comentei – Porque a gente vai burlando essa verdade para justificar fechar nossas asas e se encaixar lá, no sonho do outro. Não estou falando de cumplicidade entre parceiros, mas de ter que se modificar para ser útil. Olha que sério, não é?
Num sorriso cúmplice, completou: abri mão de amigos, de desejos, do meu corpo, da minha alma.
Era jornalista de um jornal carioca. Mulher bonita, alegre, interessante. E ao mesmo tempo, marcada pela velha história do feminino que se dobra para caber em moldes alheios.
Fiquei pensando no que arrasta tantas mulheres para esse buraco negro. Metáfora que, dias atrás, minha neta de nove anos já tentava decifrar comigo sobre o universo. De onde vem essa força de atração que nos suga para longe da própria órbita? E o trabalhão que dá depois se libertar dessa gravidade?
Então me veio à mente uma cena da Clarice Niskier no palco: ela caminha solenemente para frente, gira o rosto para trás, e diz:
“Quem trai quem? Quem foi para frente acha que quem ficou para trás traiu. Quem ficou para trás acha que quem foi para frente traiu.”
Um dilema que não tem saída: cada movimento é lido como traição. Se avança, trai a tradição. Se permanece, trai a si mesma. Não há posição inocente. A verdade não está em escolher a frente ou o atrás, mas em perceber que o olhar que acusa já é uma prisão.
Vivemos num teatro de espelhos: quem vai adiante carrega os fantasmas de quem ficou; quem fica carrega o ressentimento de quem partiu. A traição, portanto, não está no ato, mas no julgamento.
Talvez essa seja a ironia: a liberdade – sobretudo a feminina – sempre parecerá uma ameaça.
O olhar externo projeta a sombra da culpa, porque, ao romper a órbita, o corpo expõe aos outros o medo de perderem o chão.
Da mulher ainda se espera que ajuste o passo, aperte o peito, encolha o próprio querer. Que seja apropriada, fácil, mas não fácil demais a ponto de ser rotulada. Só adequada.
Uma coreografia discreta para caber.
Mas, por dentro, sempre sobra um gesto, a asa que não se dobra inteira, o desejo que resiste, a verdade que insiste em se mexer.
E talvez seja justamente esse gesto indomável – essa sobra que não se deixa domesticar – o que mantém viva a chama de quem somos, mesmo quando tudo ao redor exige silêncio e conformidade.
A alma não obedece para preservar, mas transgride para que a vida siga adiante.
Nilton Bonder chama isso de fidelidade da alma: a traição necessária para que ela não se perca.
“Transgredir é condição da própria fidelidade, porque só a transgressão permite que a tradição continue”.
No fim, a mulher sempre deve explicações: da mala que equilibra aos sonhos que carrega.
E a ironia é que, mesmo dando conta de tudo, ainda perguntam se ela dá conta de si mesma?



