O que nós, mulheres, ainda não conseguimos transformar em nossas próprias escolhas? E por que tantas entre nós seguem desejando ser escolhidas, como se a nossa existência dependesse de um veredito externo?
Há um subterrâneo emocional que atravessa gerações: a crença de que ser a escolhida garante valor, segurança e dignidade. Que legado é esse que insistimos em tatuar em alto-relevo na alma feminina, como se precisássemos exibi-lo a uma plateia sustentada unicamente pelo desejo de ser admirada?
Competir para ser escolhida não é desejo: é obediência. Obediência a uma disciplina necessária para que nos sintamos importantes.
Todas as vezes que precisamos preservar o status de “escolhida”, isto é, sustentando-nos em uma prateleira ligeiramente acima da média, permanecemos, ainda assim, numa prateleira. Imóveis. Continuamos presas ao mesmo jogo narcísico que fingimos superar. Não há eleita sem o pedestal; e não há pedestal sem cativeiro.
O que não percebemos é o quanto esse arranjo subtrai de nossa essência, enquanto acrescenta dividendos emocionais à conta do outro. E ele também vive sob ameaça constante de perder esse lugar de poder. O narcisismo, portanto, opera em regime cruzado: cada um se alimenta do outro, e ambos se esvaziam.
A manipulação que sustenta a estante do poder é sempre uma via de mão dupla: um constrói a estante; outro se acomoda nela. Um admira, o outro se conserva imóvel, sempre à mercê do desejo que o sustenta. Porque o que se vê é um esforço, reforçado pela competição, para subir ao pódio da visibilidade.
Lembro de uma frase grotesca que ouvi na adolescência, durante um almoço de mulheres. Uma amiga da minha tia disse, com orgulho:
“Eu sei tudo o que ele faz fora de casa. Sei dos casos dele. Mas ele sabe muito bem que pode comer o aperitivo onde quiser — o jantar será sempre em casa.”
Você entende a gravidade disso? A capitulação travestida de dignidade? O orgulho do pouco? Ou, de forma mais analítica, o pavor de que a hemorragia narcísica extravase e revele o que, por anos, foi mantido sob um polido sigilo.
Ser a escolhida, mesmo que na dinâmica do desejo ela seja apenas parcialmente visível, ainda sustenta o alicerce emocional que nos habita: a ideia de que ser a oficial é melhor do que ser nada. E esse mesmo legado aparece, às vezes com outra roupa, em mulheres brilhantes e independentes. Essa semana, vivi uma cena contemporânea carregada do mesmo código antigo. Três amigas conversavam sobre o fim do casamento de uma delas. Ela dizia não entender por que o marido havia escolhido outra mulher e fez questão de enfatizar que a outra era um ano mais velha do que ela.
Ri, um tanto desolada, da ênfase na idade, quando o que estava desmoronando era algo muito maior: ética, lealdade, companheirismo, e doze anos de vida partilhada. O mais interessante? Minha amiga é exatamente aquilo que o patriarcado mofado teme: brilhante, viajada, vibrante e cheia de vida. Como eu sempre digo: ela é sacudida.
E, ainda assim, presa à pergunta que atravessa séculos: “Onde eu escorreguei?”.
Essa pergunta não revela falha. Revela condicionamento.
Não são apenas mulheres frágeis que querem ser escolhidas.
Mulheres fortes, reluzentes, poderosas também se comovem ao serem escolhidas por homens igualmente poderosos. Há um brilho narcísico na escolha mútua. Um espelhamento de potências. Um jogo que parece amor, mas muitas vezes é reconhecimento de superfície.
E o mais perigoso: muitos homens poderosos desejam exatamente isso. A fantasia narcísica desse modelo arcaico é conquistar a mulher inatingível… para, no final, dominá-la. Transformar sua potência em troféu. Ela é toda dele. Mas, para que outros admirem o prêmio, ela pode descer um pouco da prateleira: ao alcance da mão. Deslumbrante. Controlada.
E quando essa engrenagem implode, a mulher, mesmo a mais brilhante, pergunta: “O que eu fiz de errado? Onde fracassei?”.
Em nada. Absolutamente nada.
O que chamamos de “fracasso” é, na verdade, o pulo do gato, a fresta por onde entra o ar, a porta que se abre, o chão que racha para que algo novo nasça.
Se tivermos coragem de não nos anestesiar, de não fugir, algo em nós começa a emergir. Um feixe de luz ilumina o que ficou tanto tempo na sombra. Porque grandes mudanças nascem da terra que trinca, do vento que desloca tudo, do mar das certezas que deixa de ser plácido.
E, como diz o ditado: mar revolto faz bons marinheiros. E faz também mulheres que deixam de aceitar o papel de preparar o “jantar garantido”.



